O útil voto em branco

Tiago Pestana de Vasconcelos · 2026-01-24T00:00:52+00:00

Escrevo, normalmente, sobre temas jurídicos. No entanto, num registo mais pessoal, verifico que a segunda volta das eleições presidenciais portuguesas de 2026 coloca muitos eleitores perante uma escolha que, para alguns, não é verdadeiramente uma escolha, e que há uma certa tendência na opinião pública para a absolutização das posições.

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Ora, no meu entendimento, António José Seguro, pelo Partido Socialista, e André Ventura, pelo Chega, representam duas visões do país que, embora opostas na retórica, deixam de fora uma parte significativa do eleitorado: aqueles que não se revêm nem na esquerda tradicional (misturada com a radical), nem na direita populista.Falo por mim, mas sei que não estou sozinho.Sou (ainda sou) do CDS. Um partido fundador da nossa democracia, que votou contra a Constituição de 1976 por não se rever no caminho que então se desenhava para o socialismo, e que, desde sempre, procurou afirmar-se como uma força de equilíbrio, racional e ponderada. Um partido que privilegia a metáfora do “eixo da roda” de Adriano Moreira: a ideia de que a política precisa de um centro de estabilidade moral e institucional, a partir do qual as diferenças podem rodar sem que o país perca o rumo.

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Ora, nestas eleições, a sensação é precisamente a oposta: as rodas parecem estar a saltar do eixo.Sou conservador nos costumes, liberal na economia e democrata-cristão nas questões sociais. Na primeira volta votei, algo contrariado, no candidato da Iniciativa Liberal. Não por entusiasmo cego, mas porque ali vislumbrei um sopro de mudança, uma tentativa de romper com o ciclo previsível entre PS e PSD, uma vontade de discutir o país para lá dos velhos alinhamentos. Era um voto imperfeito, mas com sentido.Agora, perante esta segunda volta, sinto que nenhum dos dois candidatos representa aquilo que acredito que Portugal precisa.De um lado, a continuidade de uma esquerda que, ao longo dos anos, demonstrou uma incapacidade persistente de reformar o Estado, de libertar a economia do peso da burocracia e de enfrentar, com coragem, os problemas estruturais do país. Do outro, uma direita que canaliza frustrações legítimas para soluções simplistas e redutoras, muitas vezes assentes mais na indignação do que na construção.

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Não me revejo em nenhum destes caminhos.É neste contexto que o voto em branco deixa de ser um gesto de indiferença e passa a ser um gesto político. Um gesto consciente. Um gesto útil.Há quem diga que o voto em branco é desperdiçado. Que, numa segunda volta, “é preciso escolher o mal menor”. Mas essa lógica, repetida eleição após eleição, é precisamente o que nos trouxe até aqui: a uma política onde os eleitores são empurrados para escolhas que não sentem como suas, onde o voto deixa de ser expressão de convicção para se tornar um exercício de resignação.O voto em branco, nesta circunstância, é a recusa dessa resignação.É uma forma clara de dizer que existe uma direita que nunca votará na esquerda, por convicção profunda, mas que também não se reconhece nesta direita populista, que acredita que os problemas do país não se resolvem com palavras de ordem, nem com a exploração permanente do descontentamento e do outro mais frágil, pessoas que tendem a desumanizar. É afirmar que há um espaço político — aquele que o CDS historicamente procurou ocupar — que não está representado nesta segunda volta.

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Mais do que isso, é afirmar esperança.Esperança de que, no futuro, haja alternativas que consigam falar a este eleitorado sem o forçar a escolher entre dois caminhos que considera errados. Esperança de que os partidos percebam que existe um conjunto de portugueses que exige seriedade nas reformas, responsabilidade nas contas públicas, firmeza nos valores, mas também respeito pelas instituições democráticas e pela complexidade dos problemas.O voto em branco não é um protesto vazio. É um sinal. Um aviso. Uma mensagem silenciosa, mas politicamente significativa.Não é um voto contra a democracia. Pelo contrário, é um voto que nasce da exigência de uma democracia melhor, mais representativa, mais honesta nas opções que apresenta aos cidadãos. Neste contexto, votar em branco não é fugir à decisão. É tomar uma decisão muito clara: a de não legitimar, com o meu voto, nenhuma das duas opções que me são apresentadas. E ao fazê-lo, afirmar que há espaço, há necessidade e há esperança para algo diferente — um regresso ao eixo que permita às rodas voltar a girar sem dirigirem o país ao abismo.

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Source: https://observador.pt/opiniao/o-util-voto-em-branco/